Produtores rurais pedem providências para o fim da crise

Catástrofe, calamidade, momento gravíssimo, situação de guerra, caos, população de joelhos, efeito devastador. Essas foram algumas palavras e expressões usadas por representantes do setor produtivo para descrever a crise gerada pela greve dos caminhoneiros.

Eles participaram, nesta terça-feira (29/5/18), de audiência pública da Comissão de Agropecuária e Agroindústria da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e pediram soluções imediatas para a volta à normalidade, sob o risco de um completo desabastecimento.

Mesmo manifestando apoio à demanda dos caminhoneiros pela redução do valor do diesel, os participantes enfatizaram que a hora é de voltar ao trabalho. A audiência foi solicitada pelos deputados Antonio Carlos Arantes (PSDB), presidente da comissão, e Emidinho Madeira (PSB).

Agronegócio – A audiência discutiu, sobretudo, os impactos da crise no setor rural. Vídeos com descarte de leite e de frangos mortos e com o sofrimento de outros animais por falta de alimentos deram visibilidade às queixas de representantes dos vários setores.

Na cadeia do leite, por exemplo, 100 milhões de litros já foram descartados. Os prejuízos já chegam a R$ 300 milhões para a indústria e a aproximadamente R$ 130 milhões para os produtores. Celso Moreira, do sindicato que representa os laticínios (Silemg), informou que a entidade obteve liminar para passar com os caminhões, mas os motoristas foram ameaçados.

Representantes do setor produtivo alertam para o risco de completo desabastecimento com a paralisação dos caminhoneiros.                      Foto: Daniel Protzner

 

Na suinocultura, os produtores recorreram à Defesa Civil (Cedec) para liberar alguns caminhões. Mas as estimativas da Associação Brasileira de Proteína Animal são alarmantes: R$ 3 bilhões de prejuízo, 20 milhões de suínos e um bilhão de aves mortos no País.

Adriana Maugeri, da associação de silvicultura, afirmou que os fornos estão abafados ou desligados, o que traz inúmeros problemas e ameaça 30 mil empregos diretos. Ela criticou a ausência do setor produtivo no gabinete de crise do Estado.

Usineiros querem abastecer carros do serviço público

No setor sucroenergético, das 34 usinas do Estado, 20 estão paralisadas e as demais devem parar até esta quinta-feira (31), segundo previsões do sindicato da categoria (Siamig). “Há nove dias não faturamos sequer um quilo de açúcar ou um litro de etanol”, apontou Mário Campos, presidente.

Enquanto muitos criticaram a atuação da Petrobras, ele afirmou que a paridade com os preços internacionais é o remédio para o setor, mas admitiu que a dose talvez tenha sido alta, com precificação quase diária. Isso teria sido agravado, segundo Mário, pela alta do preço do petróleo e do dólar.

Enquanto a crise perdura, o presidente do Siamig propôs uma atuação política para permitir às usinas fazer o abastecimento direto de veículos como ambulâncias e viaturas nas cidades produtoras. “Somos parte da solução do problema”, ponderou. Requerimento nesse sentido foi apresentado pelo deputado Antonio Carlos Arantes e será votado na próxima reunião.

Representantes de federações e confederações, como Faemg (agricultura), Fiemg (indústria) e Ocemg (cooperativas) também deram um panorama geral dos impactos da crise, cujas consequências serão inevitáveis. O vice-presidente da Fiemg, Theodomiro Diniz, afirmou que as seguradoras já não garantem as cargas e os bancos já não descontam duplicatas.

Ainda segundo ele, a indústria alimentícia está parada e, nos supermercados, os estoques devem durar somente até esta quarta-feira (30). Theodomiro acrescentou que a Fiemg solicitou ao governo atuação policial dos bloqueios e uma política eficaz de comunicação das ações.

Transporte – O setor de transporte também participou da audiência. Evaldo de Matos, da Fetranscoop (cooperativas), ponderou que o recado foi dado ao governo e que é hora de voltar ao trabalho. Mas ele defendeu o monitoramento dos resultados da greve, como o desconto efetivo no preço do diesel nas bombas.

Luciano Medrado, do Setcemg (empresas de transporte de cargas), afirmou que a polícia não está interferindo para evitar danos aos caminhões que estão fazendo transporte.

Geraldo Osmani, taxista da Coopertramo, solicitou à comissão que interceda junto ao gabinete de crise para destinar postos específicos para táxis. “Os aplicativos de transporte majoraram os preços em 100%. Nessa hora, o táxi pode funcionar até como ambulância”, comparou.

Requerimento nesse sentido, dos deputados Antonio Carlos Arantes e Fabiano Tolentino (PPS), foi aprovado. Os parlamentares também tiveram aprovado requerimento propondo visita de uma comissão de representantes do agronegócio ao governador.

O deputado Bosco (Avante) defendeu que os benefícios fiscais sobre combustíveis concedidos pelo governo de Minas para o transporte coletivo de passageiros sejam estendidos aos taxistas.

Infiltração pode dificultar acordo

Muitos participantes citaram a falta de uma liderança específica dos grevistas e as várias ideologias visíveis no movimento dos caminhoneiros. Também apontaram infiltração de pessoas violentas nos bloqueios, cenários que dificultam um acordo e a volta dos serviços.

O deputado Antonio Carlos Arantes ponderou que essa “infiltração de esquerda” é danosa para os próprios caminhoneiros e para o Brasil. Ele também criticou a ausência de representante do Estado na audiência.

O parlamentar disse ter apresentado projeto de redução de impostos estaduais sobre os combustíveis e argumentou que, se a proposta for ilegal, a medida pode ser tomada por meio de decreto do próprio Executivo.

O deputado Fabiano Tolentino afirmou que o produtor rural já vem passando por dificuldades há tempos, trabalhando 160 dias por ano só para pagar impostos.

Já o deputado Inácio Franco (PV) criticou o governo federal por, segundo ele, não ter tomado as decisões no início da greve. Para ele, se o movimento continuar, todo o sistema de agropecuária vai quebrar.

ALMG